Primeira negra eleita vereadora em Campina Grande diz não esperar muito da gestão de Bruno e desabafa sobre racismo: “diário e violento”

Em entrevista ao Arapuan Verdade, a assistente social filiada ao PCdoB falou sobre como foi vencer a eleição, sendo a primeira mulher negra que assumirá o cargo de vereadora, em Campina.

Jô Oliveira é uma mulher de 39 anos, assistente social, casada, e de origem campinense. Ela obteve 3.050 votos no primeiro turno das Eleições Municipais 2020, no dia 15 de novembro e foi eleita vereadora do município de Campina Grande, no Agreste da Paraíba. Em entrevista ao Arapuan Verdade, da rádio Arapuan, nesta segunda-feira (23), a assistente social filiada ao PCdoB falou sobre como foi vencer a eleição na região, sendo a primeira mulher negra a entrar para a Casa de Félix Araújo assumindo o cargo de vereadora.

Josilene Maria de Oliveira, conhecida como Jô, é filha, sobrinha e afilhada de mulheres trabalhadoras domésticas, como ela mesma destacou na entrevista. Jô tinha concorrido à Câmara Municipal de Campina Grande já em 2016, quando obteve 1.544 votos e ficou apenas na suplência.

Questionada sobre como conseguiu “furar a bolha” das oligarquias em Campina Grande e ser eleita, Jô Oliveira conta que por vir ocupando os espaços já há algum tempo, e pela curiosidade das pessoas pelo novo perfil de candidata e também pela identificação do eleitor foi possível conquistar a primeira eleição.

Prefeito eleito Bruno Cunha Lima

Em relação ao governo Bruno Cunha Lima, que vai se iniciar em 2021, no mesmo período que seu mandato na Câmara Municipal de Campina Grande, Jô disse não esperar muito, já que Bruno se declarou como continuidade do projeto de Romero Rodrigues, o qual ela aponta que não responde aos anseios dos campinenses.

“Infelizmente, eu não consigo esperar muito porque, durante todo o processo eleitoral, ele falou dessa relação com o atual prefeito, ainda em exercício, Romero Rodrigues, e falou muito dessa questão da continuidade. E esse projeto de continuidade que está posto hoje em Campina Grande, particularmente, eu não acho que seja uma gestão que diga respeito aos anseios das pessoas. Em todos os lugares que a gente passou na cidade, das pessoas que a gente dialogou, com os movimentos, todos de modo geral, foram vários os problemas apontados”, declarou Jô.

Ela contou que foi convidada por Bruno Cunha Lima para dialogar e que não fará oposição desenfreada, apoiando sempre que considerar que as ações são significativas para a população de Campina. “Ele me ligou, inclusive, na semana passada. Colocou pela imprensa que iria ligar para os vereadores e vereadoras eleitas, que ia convidar as pessoas para o diálogo. Me ligou, convidando para esse café e eu vou dizer para você a mesma coisa que disse para ele: a gente tem o interesse em trabalhar pela cidade de Campina Grande. No momento em que ele apresente projetos que visem o interesse da coletividade, que, de fato, sejam significativos para as pessoas de Campina Grande, terá nossa apreciação e nosso voto favorável. A gente não está aqui para fazer uma oposição desenfreada, sem sentido. No momento em que isso não condisser com os interesses da cidade, de fato, a gente vai se colocar contrária e, obviamente, fundamentada.”

Racismo

Jô Oliveira comentou sobre a morte de João Alberto, espancado e morto em uma loja do Carrefour em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, na semana passada. Para ela, a população negra vive o racismo diário e violento e que, coincidentemente, o povo negro é vítima de balas perdidas que nunca acertam pé, mão, mas sim, que sempre acertam partes mortais.” “Só quem já foi seguido numa loja, num supermercado, shoppings e afins, sabe o que significa isso. Saber que, infelizmente, eu posso estar sujeita a isso, ou um dos meus, um sobrinho, um primo, alguém, porque, infelizmente, a gente ainda carrega uma herança histórica de um estereótipo de que o negro, em determinas situações, ele representa perigo.”

Ela contou da própria experiência de ser observada com julgamento em lojas. “Sempre que eu entro, vou falar das minhas experiências, sempre que eu entro num determinado lugar, não está escrito na minha testa o que eu faço, a minha formação. Tem, inicialmente, a impressão das pessoas com o que elas leem em relação à cor da minha pele. Então o racismo, para nós, é uma coisa diária, violenta. Violenta ao ponto de nos matar. Nos matar naquele contexto, inclusive, que passou João Alberto e que passam tantas outras pessoas. Se você for olhar os relatos que a gente tem acesso nas redes sociais, as experiências são inúmeras.”

 

 

Redação com Click PB

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