Ensino médio deve voltar primeiro, diz presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em meio à polêmica em torno da volta às aulas, nenhuma das alternativas propostas pelas esferas governamentais vem ao encontro do que sugere o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Clovis Arns da Cunha.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Cunha afirma que a retomada das atividades escolares deve ocorrer pelos alunos do último ano do ensino médio, porque estão perto do vestibular e já entendem a importância das medidas preventivas contra a infecção pelo novo coronavírus.

Num segundo momento, os estudantes do segundo e primeiro ano do ensino médio, e da última série do fundamental, gradativamente e de forma escalonada -metade em sala de aula e outra a distância.

Cunha também critica a defasagem da tabela de remuneração de procedimentos no SUS (Sistema Único de Saúde), que não acompanhou a inflação ao longo dos últimos 50 anos.

Segundo Cunha, sem o atendimento pelo SUS o número de óbitos por Covid-19 no Brasil já teria ultrapassado 150 mil.

PERGUNTA – Como o sr. avalia a estratégia de enfrentamento à pandemia das três esferas de governo?

CLOVIS ARNS DA CUNHA – No âmbito estadual, teve um pouco mais de homogeneidade. No governo federal, observou-se uma situação muito ruim. Tentando fazer sempre uma crítica construtiva, as medidas de prevenção tão importantes que o mundo inteiro preconiza -uso de máscaras, distanciamento físico de pelo menos um metro e a higienização das mãos- não só não foram preconizadas e orientadas pelo governo federal como contrariadas. Se você não segue uma orientação homogênea, como fica a situação dos brasileiros que ouvem os médicos orientarem o uso da máscara, mas o presidente [Jair Bolsonaro] não usa? Pelo contrário, promove aglomeração e situações contrárias ao que o mundo inteiro científico orienta, incluindo a OMS (Organização Mundial da Saúde) e as sociedades científicas?

P. – O que levou o Brasil a ultrapassar 100 mil mortes por Covid-19?

CAC – Em cidades populosas, especialmente no Brasil, onde há pessoas que vivem em casa com um cômodo, é impossível fazer um isolamento respiratório. Na primeira onda, tivemos seis epicentros: São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Manaus e Belém. Nas últimas seis, oito semanas, as regiões do Brasil que não tinham sido acometidas -os três estados do Sul, o Centro-Oeste e Minas Gerais -passaram a ser. Se você tem um povo que segue as medidas, lideranças de saúde que orientam corretamente e dão exemplo de como utilizar essas medidas e elas são eficazes, você elimina muito o impacto da Covid-19 em termos de números. No Brasil, houve por muitos meses e em várias esferas pessoas dizendo que não precisava usar máscara, do distanciamento físico, isolamento social de idosos e pacientes de risco. Foi o principal motivo que levou ao número grande de casos.

P. – Quais estados mais preocupam as autoridades médicas?

CAC – Estamos na segunda fase da pandemia. Sul, Centro-Oeste, incluindo o Distrito Federal, e Minas Gerais estão no pico da pandemia. O que está acontecendo também é a interiorização da Covid-19. Várias cidades do interior estão acometidas.

P. – O sr. concorda que São Paulo está no platô e a aceleração da doença diminuiu?A população pode ficar mais tranquila em relação à pandemia?

CAC – Na verdade, é o que está acontecendo em vários estados -neste sentido São Paulo e Paraná são parecidos. Em São Paulo, o platô teve duas forças diferentes. O estado teve o pico, principalmente às custas da capital; depois, na capital diminuiu e no interior subiu. No Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, atingimos o pico e estamos no platô do pico. O número de casos e mortes ainda é muito grande, mas esperamos tanto em São Paulo como no Sul e Centro-Oeste que esse platô progressivamente vá caindo. Na cidade de São Paulo, houve uma melhora significativa, tanto que foi possível desativar os hospitais de campanha.

P. – Se o governo tivesse implantado “lockdown” em SP já estaríamos numa situação mais segura?

CAC – Se você faz um “lockdown” só num estado ou município, só adia a epidemia. Foi o que aconteceu na Nova Zelândia, em Portugal e na Alemanha. Um “lockdown” localizado, quando a situação está completamente descontrolada, como aconteceu no Maranhão, funciona só para fazer com que a curva do número de casos diminua temporariamente. As pessoas viajam. No Paraná, quando começou a aumentar a epidemia, metade dos casos era de pacientes oriundos de São Paulo. Você não consegue fazer uma barreira sanitária num país como o Brasil por quatro, cinco ou seis meses.

P. – Com a pandemia, quais conclusões podem ser tiradas sobre a saúde pública do Brasil?

CAC – Primeiro, precisamos falar sobre a parte boa do SUS. Nenhum país grande como o Brasil tem um sistema igual ao nosso. Nos EUA, onde não existe sistema gratuito de atendimento, muitas pessoas morreram porque chegavam com Covid-19 grave ao hospital e não eram atendidas por não terem como pagar. O segundo passo é pensar sobre em que é possível melhorar e em que a pandemia escancarou as nossas fragilidades. Hoje há distorções [na tabela SUS]. Ao longo dos últimos 50 anos, independentemente do governo eleito, não houve a preocupação de acompanhar a inflação. A epidemia mostrou que o SUS salvou várias vidas. Se não tivesse atendimento pelo SUS, provavelmente o número de óbitos no Brasil estaria em mais de 150 mil. Uma vez elogiado o SUS, a pergunta que gestores públicos e médicos da linha de frente da batalha devem fazer é: como remunerar melhor [os procedimentos]?

P. – O que se sabe sobre o novo coronavírus até hoje?

CAC – Hoje, os infectologistas se sentem seguros em saber qual exame precisam pedir para diagnóstico de Covid-19, como interpretar o resultado, qual deles é melhor, quando medicar o paciente, qual remédio dar, quando internar o paciente e que cuidados devemos ter ao interná-lo. Um dos grandes aprendizados foi que a doença pode causar hipóxia silenciosa (quando o paciente tem falta de oxigênio no sangue, com saturação abaixo de 95%, mas não apresenta falta de ar).

P. – Quando o Brasil terá uma vacina segura para imunizar a população?

CAC – Na virada do ano. Você tem nas vacinas hoje uma seleção que foi para a semifinal da Copa do Mundo, ou seja, a seleção está indo bem, com grandes chances de ser campeã. Há quatro ou cinco vacinas que são semifinalistas e todas podem ser campeãs até o começo do ano, entre elas a chinesa e a de Oxford, que os estudos estão na fase 3 e na fase 2 foram bem. Uma outra vacina que vamos participar dos testes em Curitiba assim que aprovada pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e Anvisa está sendo desenvolvida pela Janssen, do laboratório da Johnson & Johnson. Os testes no Brasil vão começar no início de setembro.

P. – A politização da Covid-19 pode atrapalhar o trabalho de imunização da população?

CAC – Sempre atrapalha, porque tem muita fake news, o que é um problema de saúde pública. Eu gosto de dizer que a vacinação é a segunda medida preventiva mais eficaz em saúde pública. Só perde para saneamento e água potável. Se você quer promover saúde pública, invista em vacina.

P. – Alguma possibilidade de termos um medicamento contra a Covid-19 antes da vacina?

CAC – Hoje nós já temos e essa medicação é eficaz e salva vidas, desde que feita no momento certo.

P. – O senhor está falando da dexametasona?

CAC – Isso mesmo. Esse tratamento deve ser feito ao primeiro sinal de hipóxia, quando a saturação de oxigênio fica abaixo de 95%.

P. – A Sociedade Brasileira de Infectologia é totalmente contra a cloroquina. No estado de São Paulo, o médico tem liberdade para receitar o medicamento, se achar adequado.

CAC – Como todo medicamento, essa medicação que você mencionou foi submetida a estudo clínico randomizado. Hoje, as sociedades médicas científicas e os ministérios da saúde do mundo inteiro mostraram que não tem benefício, não evita a pneumonia, a doença grave, e pode ter efeitos colaterais. Se o paciente toma na fase inicial, os efeitos colaterais são leves; na fase que está com pneumonia e muitas vezes com comprometimento cardíaco pelo novo coronavírus, a hidroxicloroquina causar arritmia cardíaca e ser fatal.

P. – O governo de SP anunciou que as escolas podem retomar as atividades extracurriculares em setembro e as aulas em outubro. É o momento de voltar às aulas?

CAC – Como deve ser este retorno? Você precisa analisar vários itens. Primeiro, se a epidemia está controlada. A segunda é implantar medidas preventivas para minimizar o impacto dessa volta. Em linhas gerais, a volta deve começar pelos alunos que estão terminando o ensino médio, que têm, em média, de 16 a 20 anos, e estão perto do vestibular. Depois, pelos das outras séries do ensino médio e, gradativamente, os mais velhos do ensino fundamental, porque são alunos que compreendem a necessidade e orientação das medidas preventivas, como o distanciamento físico, uso de máscaras e de álcool, água e sabão para a higienização das mãos. A volta deve ser escalonada. Metade da turma tem aula presencial e a outra fica no ensino a distância; na semana seguinte, inverte.

P. – Os municípios brasileiros estão preparados para as eleições municipais?

CAC – Tive a oportunidade, representando a Sociedade Brasileira de Infectologia, de participar e propor a mudança das eleições para 15 de novembro em uma reunião com o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. A nossa proposta foi aceita e adequada, porque já prevíamos naquela ocasião que, pelo Brasil ser um país continental, era provável que além daqueles epicentros que estavam sofrendo mais a epidemia outros estados e municípios seriam acometidos. No dia da eleição, certamente estaremos com a pandemia mais controlada no Brasil.

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